quinta-feira, 15 de março de 2007

Sobre o sexo, te digo que ontem, por exemplo, foi um dos momentos em que o sexo não teve lugar. É engraçado como sexo pode ser a solução ou o início de um grande problema. Eu não posso com ele. Ele não pode comigo também, mas eu não posso nem comigo mesma. Engraçadas, essas coisas. A gente se doa um pouquinho para ver que queria e podia doar mais e descobrir que o outro, que recebe, também tem muito a doar mas não segura a onda de precisar receber de volta. Entende? Não sei, não acho essas coisas tão complicadas. Mas respeito, né? Fazer o quê? Uma coisa perigosa eu e ele concluímos e admitimos ontem: a gente gosta de se ver e se sente em casa um com o outro. O 'por que não' me foge. Não me pergunte.
Ficamos conversando até às dez. Foi bom.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

É só um cara.

E não a sua vida. E não todos os dias da sua história. E não todas as suas lágrimas juntas em um único sábado solitário. Ele não é o destino. É um cara. Existem muitos destinos. Ele é só um cara que mal sabe escolher os próprios perfumes. Não sabe sangrar. Não sabe que nome daria a um filho. Não pode ficar mais tempo. Ele é só um cara perdido como muitos outros caras que você encontrou. E perdeu. Ele é só um cara.

E você já esqueceu outros caras antes.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Pessoas querem profundidade, mesmo nadando na pocinha.

As pessoas querem profundidade e não percebem que qualquer forma de envolvimento depende do que ambas as partes têm a oferecer. Pois como hoje em dia as pessoas têm cada vez menos a oferecer - já que se resguardam, se defendem, se escondem do compromisso realmente sério, que é o do coração, vão ficando cada vez mais frustradas.

As pessoas procuram profundidade acima da possibilidade e acabam agindo sozinhas, por cima de seus companheiros, a despeito da natureza do outro, e acabam depositando suas expectativas e frustrações sobre o desprevinido do outro lado da cama.


Compreendo. Fico eu aqui, lidando com minha própria frustração, encarregada do impossível que é curar um coração ferido com a ajuda de apenas duas mãos. Deixando a cargo do tempo, que realmente se encarrega de perder as pessoas na distância.

Madura o suficiente pra saber q viver é viver, e q o amor é consequência...

sábado, 25 de novembro de 2006

O amor comeu...

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

[in Os Três Mal-Amados, João Cabral de Melo Neto]

domingo, 5 de novembro de 2006

Nascer é doloroso.

Foi bom mesmo.
O ser humano, por sua vez, nasce, fode, se fode e morre de uma vez por todas. Por outro lado, a consciência disso é diária. Logo, em um ano apenas vivemos 365 novas chances. Às vezes parece pouco, e parece pouco cada vez mais.

Não sei. Nascer é doloroso.